Cartas de Gestão #32

As tecnologias e a geração de valor na fazenda

06 de novembro de 2020
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AS TECNOLOGIAS E A GERAÇÃO DE VALOR NA FAZENDA
O objetivo de todo gestor de fazendas deve ser gerar valor para o proprietário do negócio. Ou seja, o produtor tem seu patrimônio investido na fazenda e a geração de valor se dá através de um desenvolvimento real e consistente desse patrimônio ao longo do tempo.

Eu inicio o texto desta semana assim, não é atoa.

No mundo atual, estamos cercados por diversas tecnologias e aparelhos digitais. E isso já é uma realidade em fazendas também. Algumas mais, outras menos, mas uma realidade.

Entretanto, tais tecnologias estão gerando valor para os proprietários? Estes novos aparelhos, instrumentos e métodos, estão de fato se convertendo em geração de valor na fazenda?

De uma maneira geral, eu gosto de acreditar que sim. Pois, realmente eu vejo que estas coisas podem contribuir para melhores decisões dos gestores rurais e, consequentemente, isso deveria ser refletido na geração de valor.

Mas se essa for a regra, devemos ter cuidado com as exceções.

Veja, o que nós queremos é gerar valor com o negócio. Mas para isso existem algumas etapas anteriores, que eu sintetizo da seguinte forma:

EXECUÇÃO/CONTROLE > ANÁLISES > DECISÕES > GERAÇÃO DE VALOR

Coloquei execução e controle juntas, pois são duas tarefas que caminham juntas mesmo. À medida que vai sendo desenvolvida a produção na fazenda, isso vai gerando informações (agronômicas, zootécnicas, financeiras, etc.) e que precisam ser controladas. Então, são atividades que caminham de mãos dadas.

E de maneira geral, as tecnologias - até o momento - estão concentradas nas duas primeiras etapas: na Execução/Controle e nas Análises.

Tudo está interligado. Nós executamos os trabalhos operacionais da fazenda, que vão gerar informações, que precisam ser anotadas e controladas, que por sua vez, devem passar por uma análise em algum momento e que irão servir de base para as tomadas de decisões.

Então, se eu executo/controlo melhor, eu consigo ter melhores dados para análise e se eu analiso melhor eu consigo tomar melhores decisões e se eu tomo melhores decisões eu consigo gerar valor (ou ao menos tenho maiores chances de conseguir gerar valor, pois nada é garantido).

Bom, até aqui tudo bem. Acredito que tenha sido possível entender como as tecnologias podem ajudar na geração de valor das fazendas.

Mas eu levanto dois problemas que você deve ficar atento na contratação de uma nova tecnologia, pois seriam problemas que iria atrapalhar no nosso objetivo de gerar valor.


Problema 1: o excesso

Já ouviu aquela frase de que basta apenas uma gota para um copo, que já está cheio, transbordar?

E, de fato, estamos cercados por uma infinidade de opções tecnológicas para facilitar nossas vidas. É claro que todas possuem uma proposta boa e honesta. Realmente acredito nisso.

Mas a realidade é que nem todas serão realmente boas e, efetivamente, não há a necessidade de se possuir todas.

Software para controlar isso, aparelho para monitorar aquilo, mais outro software para acompanhar tal coisa e tudo isso gerando muitas informações que vão precisar ser processadas e analisadas depois.

No fim, o gestor acaba com uma pilha enorme de informações em que uma boa parcela será inútil, outra parcela será ignorada e, somente a parcela final será, de fato, utilizada para as análises e tomadas de decisões.

Imagine que você coloque algum software acoplado no trator e que este software vá coletando e gerando dados de toda a área cultivada e do desempenho das operações. Depois vão vim os monitoramentos com drones e outras tantas informações serão coletadas. Depois passamos para o monitoramento climático. Tudo isso são dados que podem (destaque para o podem) ter utilidade futura.

Mas, podem também não ter.

O que vai determinar isso é como você consegue agregar todas as informações geradas, como consegue analisar estes dados com o mínimo de rigor estatístico e como você vai interpretar estes dados para tomar as melhores decisões.

Só que o que acontece é que, infelizmente, muitos dados são gerados para que o gestor tome decisões que ele acabaria tomando da mesma forma! Seja por uma análise já enviesada dos dados (aquela em que ele analisa já sabendo o que quer encontrar e, no fundo, já tem a decisão definida na cabeça) ou seja por um excesso de dados que vão trazer mais confusões do que soluções e aí ele acaba tomando a decisão que ele acredita ser melhor, com a diferença de que agora ele tem um pano de fundo tecnológico para justificar a decisão.

Portanto, neste tipo de situação, acredito que o interessante seja primeiro descobrir o que você QUER saber. Quais dados você gostaria de ter e que não possui hoje? E como as tecnologias podem te ajudar a conseguir estes dados da maneira mais fácil e confiável possível?

Mas para saber quais dados serão importantes é preciso estudo e conhecer o que é, realmente, importante.

Isso já nos dá brecha para passarmos ao problema 2.


Problema 2: "o que faço com isso?"

Este segundo problema é um típico problema de sub-utilização.

Ou seja, existe várias tecnologias na fazenda, mas acabam não sendo aproveitadas da melhor maneira possível ou da maneira mais otimizada possível. Na prática, seria como comprar um iPhone 12 e só utilizar para fazer e receber ligações.

E note que a raiz desse problema 2, está no problema 1.

Se o gestor da fazenda contratou ou comprou alguma tecnologia sem saber o que ele quer de informações e como esta tecnologia vai ajudá-lo com essa informações, ele acaba chegando nesse problema 2.


Como conclusão temos que pensar que as tecnologias devem contribuir para que nós possamos tomar melhores decisões. E para isso, precisamos entender como ela vai nos ajudar nisso.

E entender isso passa por compreender que, muitas vezes, pode não ser necessário possuir várias e várias tecnologias na fazenda (problema 1) e que não adianta ter alguma tecnologia sem entender e conseguir utilizá-la (problema 2).

Os recursos da fazenda precisam ser alocados de forma inteligente, justamente, para contribuir com a geração de valor. E eu realmente acredito que a tecnologia é uma boa opção de destino de recursos, mas como todas as outras decisões, escolher qual tecnologia e saber porquê ela será importante é fundamental para escolher certo. Do contrário, é melhor utilizar os recursos em outros locais.

Autor
Gabriel H. Lima
Eng. agrônomo e fundador da PATRIA

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