Cartas de Gestão #14

Margem é margem. Retorno é retorno.

03 de julho de 2020

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MARGEM É MARGEM. RETORNO É RETORNO.
Hoje o nosso texto será um pouco mais técnico. Vamos trabalhar alguns conceitos importantíssimos e de forma mais direta.

Eu, particularmente, não gosto muito dessa abordagem.

Segundo vários estudos no campo da ciência cognitiva, nossos cérebros têm uma capacidade muito maior de aprendizagem quando alguma história é contada e, por isso, tento trazer alguma forma de aprendizagem para gestão de fazendas com algum enredo de pano de fundo.

Mas, enfim... também é válido tratar de maneira mais técnica e direta alguns pontos importantes como o de hoje. E vou tentar transmitir as ideias da maneira mais simples possível.

Sem mais delongas e indo direto ao ponto, se você tem interesse em fazer uma gestão eficiente de alguma fazenda você precisa entender pelo menos o básico de matemática financeira.

Infelizmente não há escapatória.

De nada adianta saber tudo da parte operacional, saber cultivar e criar como ninguém no mundo, se não conseguir dominar ao menos o básico da gestão financeira.

E isso é um problema muito (muito!) comum. Sobretudo em fazendas.

Portanto, minha sugestão mais sincera é: procure aprender o quanto antes e o máximo que conseguir sobre finanças. Seja por meio de livros, do nosso curso aqui na PATRIA, outros cursos, pós-graduação, enfim. Aprenda e isso fará um diferencial enorme na sua vida.

E para começar nosso assunto, eu te pergunto: é possível rodar uma operação na fazenda gerando um retorno de 3% ao mês?

Essa pergunta surgiu de uma conversa informal que tive com um produtor (vamos chamá-lo de José) e que, segundo ele, um colega seu, e também produtor (e que vamos chamá-lo de Pedro), disse que estava conseguindo esse retorno com a fazenda.

Meu pensamento logo de cara: TRUCO!

Veja, ao contestar uma informação deste tipo não quer dizer que eu não acredite que seja possível. Pelo contrário. Eu sei que é possível conseguir um retorno de 3% ao mês com alguma operação. Ou até mais.

O que eu truco é na maneira como essa informação foi vendida pelo Pedro para o José.

José terminou acreditando que Pedro estava conseguindo ter uma rentabilidade de 3% ao mês com a fazenda!

Olha, um retorno de 3% ao mês vai gerar um retorno de 36 a 42% ao ano, dependendo de como for a abordagem. A diferença se dá pelo juros simples ou juros compostos. O simples incide somente sobre o montante principal e o composto é o famoso juros sobre juros, ou seja, incide sobre o principal mais o rendimento. Vamos considerar então que o Pedro esteja muito feliz e esteja reinvestindo o retorno na própria operação. Logo, vamos trabalhar com 42% ao ano.

Bicho, uma rentabilidade de 42% no ano é algo colossal!

Isso quer dizer que seja impossível? De maneira alguma! É possível. Mas precisamos ter dois pontos em mente:

1 - Noção de proporção: esses 42%aa que estão sendo gerados é sobre o total do patrimônio investido ou sobre uma parcela? Se você tem 1 milhão de reais parado na sua conta do banco e tirar 100 reais em um dia e comprar bananas e no outro dia você as vender por 200 reais, pronto. Você teve um retorno de 100% em 1 dia! Isso é ótimo, mas de fato qual foi a rentabilidade sobre o seu patrimônio? Você saiu de 1 milhão para 1,0001 milhão.

2 - Noção de risco: acredito que somos todos adultos aqui e já entendemos que nada vem de graça nessa vida. Não existe almoço grátis (na verdade existe, mas fica para outro texto). Quer ganhar mais, vai precisar correr mais risco. E aí a questão passa a ser se vale a pena e se você está disposto. Compre 1 milhão de reais em bananas e tente fazer 2 milhões com isso em um único dia.

Então como Pedro está dizendo que ele está tendo uma rentabilidade de 3% ao mês?

Porque Pedro está confundindo rentabilidade com margem!

Quando falamos sobre rentabilidade estamos pensando no quanto o patrimônio que foi investido está gerando de retorno. E é claro que podemos sempre analisar a rentabilidade sobre uma determinada parcela específica do patrimônio (como no caso das bananas que foram compradas a 100 reais e vendidas a 200). Mas, no fim das contas o que vai importar mais é a rentabilidade total do patrimônio, não?

Então se Pedro tem investido R$ 4 milhões na fazenda (incluindo terras, máquinas, cercas, benfeitorias, animais, estoques e tudo mais que houver) com um retorno de 3% ao mês, ao final do primeiro ano ele vai terminar com R$ 5.703.043,55 de patrimônio. Seguindo nesse caminho, no final de 2 anos ele praticamente dobrou de capital, estando com R$ 7,9 milhões.
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Olha... tem gente inteligente demais mundo à fora. Reconheço isso e sei que não faço parte deste grupo e pode ser que Pedro faça. Mas sou um cético por natureza e, novamente, eu truco, peço 6, 9, 12, 18 ou qual for o limite até que me mostrem o zap.

Infelizmente, de onde eu venho, dobrar o capital a cada 2 anos é algo insustentável no longo prazo. Ou se está num patamar de risco muito elevado que não vai valer a pena ou foi um eventualidade muito boa proporcionada por uma baita sorte (o papel da sorte é primordial. Sucesso é 80% sorte e 20% competência).

O que eu acredito que Pedro esteja chamando de retorno seja a margem. E ainda por cima a margem bruta da operação da sua fazenda.

Aí sim, estaríamos talvez falando de números mais condizentes. Porém, baixos. E isso faria do Pedro alguém que está se enganando por um valor.

Quando falamos sobre margens, a primeira que consideramos é a margem bruta. E a margem bruta é simples de calcular, é o espaço entre o total do faturamento e os custos caixa ou custos desembolsáveis ou custos operacionais efetivos, nomeie da forma que achar melhor, mas são os custos que realmente houve saída de dinheiro da fazenda.

A margem bruta se aproxima muito da margem EBITDA, que leva em conta o EBITDA da fazenda, ou seja, o lucro antes de pagar juros, impostos, depreciação e amortização (não aquela relacionada a empréstimos, mas sim uma espécie de "depreciação de ativos intangíveis" e muito raro em fazendas).

Eu, particularmente, gosto mais de acompanhar a margem EBITDA e, claro, sugiro que faça o mesmo. Prefiro ela, pois é como as melhores práticas de gestão financeira fazem e, portanto, sigo as melhores práticas.

Mas acontece que as contas não terminam aí. Infelizmente.

Depois disso temos que considerar os custos invisíveis do negócio. E aí devemos colocar no mínimo a depreciação (se não sabe o que é ou não entende direito a depreciação, me responda neste e-mail pedindo um texto sobre isso para eu saber).

Mas além da depreciação podemos acrescentar outros custos "não-caixa", ou seja, que não há desembolsos, pagamentos, saídas de dinheiro da fazenda tais como: a produção perdida e mortes de animais, por exemplo.

Se você produziu ou tem algum animal, estes fatores estão compondo o lado dos ativos da fazenda e se, por ventura, há uma baixa neles, é preciso computar algum valor negativo para representar a redução nos ativos.

Computando estes custos invisíveis, teríamos a margem líquida (ou lucratividade), que é o espaço entre o total de faturamento da fazenda e o lucro líquido.
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A rentabilidade seria calculada dividindo o lucro líquido (rever imagem acima) pelo total do patrimônio líquido investido na fazenda, sendo o patrimônio líquido o total de ativos, ou seja, tudo que está lá investido menos o que se tem de dívidas e contas a pagar.

Perceba que há uma diferença tremenda entre margem e rentabilidade (retorno) e devemos ter muito cuidado com o que ouvimos e até mesmo falamos.

Conseguir um retorno de 3% ao mês é algo completamente diferente de conseguir uma margem (seja ela qual for) de 3% ao mês.

Por fim, acho que acabei contando uma história. Espero que possa levar algum aprendizado com isso.

Um abraço e ótimo final de semana,

Autor
Gabriel H. Lima
Eng. agrônomo e fundador da PATRIA

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