Cartas de Gestão #13

Te conto como comecei, mas nunca como vou terminar

26 de junho de 2020

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TE CONTO COMO COMECEI, MAS NUNCA COMO VOU TERMINAR
"Este é o mundo real, meu caro. A escola acabou. Alguém roubou seus sonhos e você não sabe quem foi."
Kanye West

Se voltássemos ao ano de 1970 e contássemos para alguém naquela época como o mundo estaria hoje, certamente o nosso ouvinte acharia que nós dois somos verdadeiros malucos.

Calma. Não estou falando sobre pandemia e coronavírus. Eu, particularmente, já não suporto mais esse assunto.

Estou me referindo a todas as facilidades que nos cercam hoje em dia.

E perceba que estou comparando com apenas 50 anos atrás. Não faz tanto tempo assim.

Alguém naquela época já imaginava que dali a alguns anos, nós todos estaríamos digitando em um aparelho que nem teclado tem?

E que, com este mesmo aparelho, seria possível ligar e receber chamadas, tirar fotos e gravar vídeos cada vez melhores, se comunicar com qualquer pessoa do mundo e a qualquer hora do dia ou da noite?

E, talvez o mais importante para o texto de hoje, que com apenas alguns cliques em um lugar chamado Google seria possível descobrir qualquer coisa sobre tudo?

Eu sei que este início do texto nada tem a ver com gestão de fazendas. Mas vamos chegar lá, aguarde mais um pouco.

Antes das mordomias tecnológicas, o processo de aprendizado era mais investigativo. Ou seja, era preciso absorver mais o aprendizado e misturá-lo com o que se experimentava na prática.

E dessa mistura surgia um enriquecimento cognitivo sobre determinado assunto que poderia ser passado para os outros que, por sua vez, misturariam com sua própria carga de conhecimento e assim a roda girava.

E hoje? Falam tanto de ensino à distância como uma novidade, mas se esquecem que o ensino à distância é a forma de ensino mais antiga que existe!

Pegue qualquer livro em uma livraria. Pronto. Você estará fazendo uso de ensino à distância. E há quantos anos existem os livros?

Hoje, eu tenho a impressão de que tudo o que você procurar no Google ou no YouTube vai te mostrar alguém com uma fórmula pronta.

Uma espécie de conhecimento já mastigado e pronto para ser consumido e que, após o consumo, acabou. Parta para o próximo.

E isso é, particularmente, perigoso quando pensamos em gestão de fazendas.

O problema deste tipo de coisa é que querem te passar uma receita pronta para problemas e desafios nos quais não há uma receita pronta!

Veja, aqui na PATRIA, eu tento tomar o maior cuidado ao passar algum conteúdo. Quando te enviamos um vídeo sobre o risco comercial da fazenda, ou então quando postamos algo nas redes sociais, por exemplo, sobre o rateio de custos, ou mesmo no nosso curso, em que passamos um caminhão de conteúdo sobre como pensamos e enxergamos a gestão de fazendas, o nosso objetivo principal não é que você saia com alguma fórmula pronta ou uma espécie de receita de bolo. Isso não existe na vida real, com problemas reais.

O principal objetivo é te passar informações, ferramentas, ideias e maneiras de enxergar e raciocinar sobre determinados pontos que poderão te ajudar nas situações complexas que existem na gestão de uma fazenda.

Vamos pegar como exemplo o rateio dos custos de produção. É comum que haja custos comuns nas diferentes atividades da fazenda.

Imagine que sua fazenda produza soja, milho e boi e que ela possua um custo com mão de obra que trabalha no desenvolvimento das 3 atividades.

Como você divide este custo entre as 3 atividades?

Algo que devemos concordar é que não seria justo colocar este custo todo como sendo de uma única atividade, certo? Por isso, quando não é possível fazer uma classificação do custo por atividade, é preciso fazer um rateio deste custo.

E há diferentes formas de realizar um rateio de custo. Há rateio por absorção, por departamento, por faturamento, etc...

A maneira que eu utilizo é por faturamento. Vejo vantagens na simplicidade deste método. E, portanto, é a maneira que eu sugiro para trabalharmos na gestão da fazenda. Até por uma questão de lógica.

Não faria sentido eu sugerir algo que nem eu próprio faço ou uso, certo?

Mas o importante é que você compreenda o raciocínio e que se, para alguma situação específica na sua fazenda, você achar que este método não é o melhor, que você procure alguma alternativa, venha trocar ideias comigo e procurar a melhor solução.

Lembre-se: não há receitas prontas e universais.

Deixa eu te contar como comecei neste mundo da gestão de fazendas.

Estava no 1º semestre da faculdade de agronomia. Ainda sequer sonhava com as disciplinas de administração rural, economia rural e com os conteúdos futuros que aprenderia tanto na faculdade quanto fora dela.

Mas algo instintivo já me dizia da importância de uma boa gestão nas fazendas e, então, caí para dentro da fazenda da família.

Sem ninguém me pedir ou orientar, eu comecei fazendo uma gestão de estoques. Simplesmente achei que era algo importante e que eu poderia fazer e, então, comecei.

Não sabia nada sobre custos de estoques, método ABC, estoque mínimo e outras coisas sobre isso. Mas fiz o que achei que faria o maior sentido.

Acho que meu objetivo na época era somente organizar melhor os estoques e gerar uma economia evitando desperdícios.

Enfim, de lá para cá aprendi muito sobre gestão de estoques e demais outros pontos. Mas, perceba que o aprendizado foi enriquecido dos dois lados. Pude melhorar na prática pelo conhecimento teórico e melhorar no aprendizado teórico pelo conhecimento da prática.

Mas isso, definitivamente, não quer dizer que terminou. Amanhã posso ver algo novo e que mude a forma como trabalho. Não há problema nisso. Pelo contrário.

Este é o grande ponto-chave da coisa. Precisamos viver em um modo de aprendizagem e crescimento contínuo.

Você aprende na escola, ou mesmo no nosso curso de gestão para fazendas que 2 x 5 é igual a 10. Mas, na vida real, com situações complexas, você precisa responder quanto é 10 dividido por 2!

Perceba que, no fundo, você já sabe a resposta. Ou, para ser mais preciso, você sabe parte do caminho que pode te levar a resposta. O que é preciso é somente analisar a situação e refletir sobre as aplicações do seu conhecimento.

Existe algo na economia chamado de curva de aprendizagem. A ideia é que quanto mais você pratica e aprende em determinado ponto na gestão da fazenda, mais isso vai te gerar uma economia de custos e outros tipos de ganhos.

Mas só é possível de existir uma curva de aprendizagem se você estiver: i) tentando e fazendo; ii) aprendendo com os erros e tentando de novo.

Não tenha receio de começar a gerenciar algo na fazenda. Mesmo que você não saiba nada sobre isso. Comece e vá aprendendo. Procure informações e conceitos teóricos, analise como encaixar isso na prática. Tente de novo. Aprenda de novo. Tente mais uma vez. Aprenda mais uma vez.

Você vai ver a diferença com o passar do tempo.

Um forte abraço e ótimo final de semana!

Autor
Gabriel H. Lima
Eng. agrônomo e fundador da PATRIA

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