Cartas de Gestão #10

Todos os caminhos levam à Roma

05 de junho de 2020

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TODOS OS CAMINHOS LEVAM À ROMA
O Império Romano foi, sem dúvidas, uma das maiores potências em termos econômicos, políticos e militares já existente. A história nos conta que, no auge, o império exercia autoridade sobre mais de 70 milhões de pessoas (algo próximo a 20% da população mundial na época!).

E, talvez ainda mais impressionante, sobre um território de cerca de 5 milhões de km². Trazendo para nossa unidade de medida usual, seriam algo em torno de 500 MILHÕES de hectares.

É chão, amigo!

Bom, como uma organização desse tamanho e com todas as complexidades existentes consegue perdurar ao longo de 500 anos é algo que poderíamos extrair várias lições sobre gestão e com certeza aplicá-las em nossas fazendas.

Na época do Império Romano, as estradas, que eram chamadas de cursos públicos, eram o meio de comunicação mais importante da época. Lembre-se de que não haviam celulares e computadores.

E os mais de 80 mil km de estradas, sempre traçadas em linhas retas, eventualmente levariam ao mesmo destino: Roma.

Isso possui um paralelo muito importante com a gestão de fazendas. Já vamos chegar lá.

Mas antes, tente entender a importância e o significado disso.

Primeiro devemos levar em conta a simplicidade dessa medida. Como Roma era o coração do Império e de onde partiam todas as comunicações e definições estratégicas era primordial que essa comunicação fosse entregue da maneira mais rápida e eficiente possível.

Então, bastaria que o mensageiro seguisse em linha reta de Roma ao destino ou tendo Roma como destino.

Simples e direto.

Minimizando distrações e focando no que realmente importa.

E o que realmente importa na gestão de fazendas?

Olha, a verdade é que muitas coisas importam. Mas se eu tivesse somente uma única chance para responder e a resposta certa valesse 1 milhão de dólares, sem dúvidas eu responderia: produzir com o menor custo possível.

E as complicações começam a surgir, justamente quando nos desviamos deste foco.

O primeiro ponto a entender é que produzir com o menor custo possível não significa produzir com o menor custo total (CT).

Uma fazenda que produz 5 unidades de produto com um custo total de 100, tem um custo médio de 20/unidade. Já outra fazenda que produz 10 unidades com um custo total de 160, tem um custo médio de 16/unidade.

A segunda fazenda teve um custo total maior, mas mesmo assim se encontra em uma posição mais vantajosa.

Isso é particularmente importante, pois não basta apenas sair cortando gastos a torto e a direito se estes cortes representarem uma queda na produção.

Pode ter produtor de pecuária com confinamento e um alto nível de gastos com custo mais baixo do que um produtor com produção à pasto e quase nada de gastos.

Mas o ponto principal que gostaria de trazer hoje nem é este.

O segundo ponto e mais importante hoje é sobre a obsessão que temos pelo preço de venda dos nossos produtos.

Faz sentido isso?

Imagine que você conseguisse acessar o futuro e descobrir com 100% de certeza o preço que você vai vender sua produção.

O que isso iria, efetivamente, mudar no seu trabalho de gestão da fazenda?

Suponha que este preço seja R$ 5/unidade. Não importa o produto e os detalhes, mas sim a ideia.

Se você tivesse certeza que iria vender seu produto a R$ 5,00/unidade na próxima venda sua, o que você faria? O que isso mudaria, de fato, na gestão da fazenda?

Você iria produzir com um custo de 5 também?

Ou você iria tentar produzir com um custo menor do que 5?

Mas quanto menor?

4,50 estaria bom?

4,00?

Quanto menor o custo melhor, certo?

Então, novamente... o que mudaria se você soubesse o seu preço de venda no futuro?

"Ah Gabriel, mas eu teria uma maior segurança assim."

Sem dúvidas. Não tenho nada a questionar sobre isso. Mas o seu trabalho, como um gestor ou gestora de fazenda, seguiria sendo o mesmo: produzir com o menor custo possível.

Isso é um ponto que me deixa até um pouco frustrado as vezes.

Eu participo de alguns grupos de WhatsApp com outros produtores e rotineiramente há extensos debates sobre preços.

Sinceramente, acho que é uma das maiores perdas de tempo que poderíamos ter como gestores de fazendas. Até me pergunto quantos dos que falam sobre preço saberiam dizer o seu custo de produção exato...

Mas isso é outra história.

Saber o preço não vai fazer diferença, entende? Você vai precisar fazer o mesmo trabalho, sabendo ou não.

Vire a mesa. Use a incerteza sobre o preço a seu favor.

Qual o menor preço possível que você considera para receber no futuro? Faça uma média dos últimos preços que recebeu e faça um corte para ser conservador.

Pense no menor preço que você acha possível receber.

Pronto. Ponha na cabeça que este é seu preço de venda e trabalhe para produzir com um custo no máximo igual a este.

No fim, todos os caminhos nos levam ao mesmo destino:
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Autor
Gabriel H. Lima
Eng. agrônomo e fundador da PATRIA

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